Textos ao vento

Um pouco de tudo. Um bate papo sobre política e sociedade contemporâneas sustentado na cultura noticiosa. Jornalismo em diálogo constante com a história. Editor responsável - José Carlos Peixoto Júnior DRT-BA/1884

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03.12.06

Venezuela continua marcha com Chávez

 O presidente Hugo Chávez foi reconduzido ao poder na Venezuela

O povo da Venezuela reelegeu, com cerca de 61% dos votos, Hugo Chávez Frias à Presidência. Pesquisas de intenção de votos davam ao presidente 52%, enquanto seu adversário, Manuel Rosales, do partido Um novo tempo, seguia com 22,5% das intenções. A luta no país vizinho teve um clima tão acirrado ideologicamente quanto às últimas eleições ocorridas há pouco mais de um mês aqui no Brasil. Correspondentes de diversos locais do mundo estiveram em Caracas para acompanhar o pleito, que se manteve polarizado entre o discurso neoliberal de Rosales e a promessa de intensificação da Revolução Bolivariana, levada a cabo por Chaves e seus seguidores. Um desses correspondentes que esteve em Caracas é o jornalista Wellington Mesquita, que está realizando um excelente trabalho naquele país. Mesquita tem entrevistado especialistas e cidadãos do povo e veiculado essas informações no seu blog Eleições Venezuela 2006.
De acordo com observadores internacionais, o país esteve devidamente preparado para as eleições. A chefe da missão de observadores da União Européia, a eurodeputada italiana Mónica Frassoni, garantiu que tudo correu normalmente. 
O Ministério do Interior da Venezuela “marcou cerrado” os meios de comunicação que operam no país. Ainda é de viva memória a tentativa de golpe de Estado em 2002, que durou menos de 48 horas e foi barrado pela pressão popular. Na ocasião, empresários de mídia e de diversos outros ramos tentaram ocupar o palácio Miraflores enviando Hugo Chávez para uma ilha na costa venezuelana. Os meios de comunicação articularam que Chávez havia renunciado quando na verdade setores das Forças Armadas pressionavam o presidente ameaçando bombardear o Miraflores caso ele não se entregasse. A euforia durou pouco. A população da periferia de Caracas, tomando conhecimento através de um canal fechado francês, ocupou as imediações do palácio e, contando com o apoio da Guarda Nacional, exigiu o retorno do presidente.
Estes episódios são detalhados no documentário A revolução não será televisionada, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain. Ambos estavam na Venezuela documentando o governo do presidente Chávez quando foram surpreendidos pelos momentos de preparação e desencadeamento do golpe. Puderam registrar, inclusive no interior do Palácio, a espetacular reação do povo.
A vitória de Chávez não se deve ao que diversos setores da mídia brasileira apontam como um “governo populista”. O buraco é mais embaixo. Pesquisa encomendada ao instituto Ipsos pela agência de notícias Associated Press aponta que o governo de Hugo Chávez é apoiado por 63% dos venezuelanos. Na mesma pesquisa, 60% afirmam crer que o país avança na direção certa e está tocando bem sua política econômica. Itens como saúde e educação, por exemplo, são políticas públicas apoiadas por 75% e 74% dos entrevistados, respectivamente.
Não se pode anular a verdade. Em entrevista ao correspondente do jornal Folha de São Paulo, Sérgio Dávila, que se encontra em Caracas cobrindo as eleições, o economista da Universidade de Michigan, Mark Weisbrot, diretor do Center for Economic and Policy Research, entidade sediada em Washington, é taxativo em afirmar que “pode-se discordar de Chávez, mas ele cumpriu o que prometeu”.
A afirmação é respaldada por Edgar Lander, professor da Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais da Universidade Central da Venezuela. “Uma porcentagem elevada e crescente de gastos públicos é destinada às despesas sociais”, observa Lander. Os recursos para isso foram avolumados, desde 2002, quando o governo canalizou partes substantivas da receita da PSDVA (estatal de petróleo da Venezuela) para esses investimentos.
Uma outra frente do governo Chávez, acrescenta o professor, é o crescente processo de politização da população impulsionado pelo Estado. “De uma situação em que a pobreza era acompanhada de altos níveis de exclusão política e cultural, avançou-se para processos de participação e organização popular”, afirma Edgar Lander. Segundo ele, experiências organizativas de base, como as Mesas Técnicas de Água, os Comitês de Saúde e os Comitês de Terra Urbana, não têm antecedente na história da Venezuela.
A reação à Chávez, ou melhor, a oposição, centrada em setores das classes média e alta, grandes empresários e quase a totalidade da mídia venezuelana, aposta no “retorno à normalidade”. Ou seja, na volta ao neoliberalismo de forma triunfal. O opositor do presidente, Manuel Rosales, governador do Estado de Zulia, região petrolífera e mais rica do país, afirma em sua campanha que é candidato dos “excluídos de Chávez”. Rosales, contrariando todos os dados sociais e econômicos aferidos nos últimos anos, diz que a Venezuela está mais pobre. E se está, parece que esses mesmos pobres preferem não marchar com ele. A verdade é que a maioria da população venezuelana está endossando a continuidade de uma gestão de governo que tem favorecido sobremaneira os até então excluídos bolsões de pobreza do país.



  • criado por  Zeca criado por Zeca
  • Postado em 21:17:06
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