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O frisson causado no Senado em relação à proposta de rebatizar o aeroporto de Salvador com o antigo nome, Dois de Julho, dá a medida certa do distanciamento da classe política das aspirações populares. O levante dos “notáveis” ocorreu na sessão de ontem à tarde, quando parlamentares debateram sobre a proposta. Do presidente da casa, Renan Calheiros, a senadores do porte de Eduardo Suplicy (PT-SP), foi quase unânime o coro em prol da manutenção do atual nome, Deputado Luis Eduardo Magalhães, uma homenagem ao filho do senador Antônio Carlos Magalhães que morreu em 21 de abril de 1998.
A verborréia foi a mesma, no parlamento e na mídia. Os senhores senadores se mostraram indignados com a possibilidade da mudança do nome. O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), líder da oposição, classificou a proposta de “pequena”. Outros senadores, como Agripino Maia (PFL-RN) e Suplicy (PT-SP), improvisaram panegíricos à memória do político falecido. No Jornal do Brasil, o declarado jornalista carlista Augusto Nunes se encarregou de publicar nota ácida atacando o governador eleito da Bahia, Jaques Wagner.
A atitude do Governo Federal, comandado à época pelo ex-aliado de ACM, Fernando Henrique Cardoso, revelava um mimo nas entrelinhas dos interesses das gestões de FHC e ACM. Os carlistas, naquele momento, disponham de farta bancada no Congresso Nacional e o presidente precisava desses votos para tocar seu governo. Era uma aliança política. Luis Eduardo Magalhães, que fora presidente da Câmara Federal, candidato ao governo da Bahia e tido como um dos quadros presidenciáveis dos pefelistas, postara-se como um dos mais sólidos pilares desse acordo envolvendo o PFL baiano e o tucanato de alta plumagem de São Paulo.
Dar o nome do aeroporto ao filho do presidente do Senado era mais do que um gesto de delicadeza, era selar essa aliança em meio à turbulência do falecimento da principal peça-chave da mesma.
E essa negociata política rifou a verdadeira homenagem feita pelo povo da Bahia aos seus heróis quando nomeou o aeroporto da capital do Estado com o nome de Dois de Julho. Certamente que o jornalista Augusto Nunes e os senadores da República desconhecem essa história, pois se conhecessem não tomariam tal atitude. E até mesmo aqueles que se colocam ideologicamente no campo politicamente antagônico ao carlismo, mas que defenderam a manutenção do nome atual por puro espírito de compadrio corporativista. É o caso da Vossa Excelência Suplicy.
Luta de resistência
O Dois de Julho foi luta popular de libertação. O Dois de Julho é festa cívica popular e na Bahia representa mais do que o próprio Sete de Setembro. Foi o momento em que o povo “baiense”, como nos narra os livros de História, se levantou contra a opressão portuguesa que ainda teimava em dominar o Brasil um ano após o processo de independência. Foi a guerrilha em Cachoeira e Salvador que uniu caboclos, negros e brancos brasileiros contra as tropas portuguesas. Dois de Julho poderia se chamar até mesmo o nome do Estado. E essa data de tanta representatividade simbólica para a memória cívica dos baianos foi vilipendiada para dar lugar ao culto à personalidade de uma dinastia que se sentia dona da Bahia. O aeroporto é Dois de Julho!