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Manifestação da UNE contra o governo Collor. Um dos últimos suspiros do movimento estudantil
Onde foi parar o entusiasmo, a gana e a disposição de luta dos estudantes brasileiros? Bons foram os tempos que universitários e secundaristas exerciam a cidadania na sua plenitude, questionavam dentro e fora da sala de aula e construíam no dia-a-dia imaginários de utopia, pensando num mundo de justiça, igualdade liberdade e solidariedade. Já foram capazes de feitos memoráveis na nossa história recente. Ajudaram a por o Brasil na Segunda Guerra contra as potências nazi-fascistas, enfrentaram as baionetas do Regime Militar e colocaram abaixo o governo de Fernando Collor de Mello, entre outras atitudes.
Diretórios e grêmios estudantis representavam os centros nervosos das instituições de ensino. Ambientes nos quais pulsava a vida acadêmica em todas as dimensões: política, cultural, estética etc. Nas paredes, perdiam-se de vista os anúncios que iam de debates políticos a festas organizadas pelos próprios estudantes.
Debatia-se Marx, Freud, Marcuse, Sartre, Janis Joplin, Caio Prado e Faoro. Vivia-se entre a atitude contracultural da meditação e a orientação vietnamita de Ho Chi Mim. Ser socialista, trotskista, anarquista, existencialista ou porra louca não importava, o importante era vivenciar o mosaico de orientações que enriquecia o cabedal de conhecimento do coletivo. A vida lá fora era a resistência ao inferno da repressão, e lá dentro o paraíso da utopia. Eles pensavam, ao menos.
O legado de gerações em luta, ao que parece, não sofreu continuidade. Pena. Viver num país vice-campeão em desigualdades sociais não desperta mais a indignação da maioria da juventude universitária. A fulgacidade das atitudes, a alienação acerca do mundo que os cerca em consonância com a mercantilização do ensino e da cultura perfaz a alquimia necessária que transforma a combustão do inconformismo na assimilação fácil a valores sustentados na imagem e no modismo. Eles só crescem biologicamente.
Uma traição do iluminismo? Ao contrário do que se postulava, a redemocratização do Brasil foi concomitante à crescente descrença no conhecimento. A democracia, que deve ser o ambiente propulsor de novas idéias e ideais, deu lugar à plasticidade das relações sociais. Os estudantes universitários, na sua maioria, passaram gradativamente a reproduzir atitudes como se ainda estivessem nos bancos da escola primária. Eles se indignam de forma difusa e desorganizada e são incapazes de levar adiante qualquer discussão coletiva.
Trata-se de um encaixe perfeito com a dinâmica das “novas” instituições de ensino superior privadas, que propositadamente os infantiliza e detêm sobre os mesmos um rígido controle de pensamento e atitude de forma dissimulada e “clean”. O sucateamento das universidades públicas e a conseqüente diminuição da oferta de vagas nas mesmas permitiu o avanço desenfreado das instituições particulares. O vestibular acabou e agora se disputa alunos no tapa. O varejo da oferta de cursos superiores construiu um mercado de taxis teachers (professores horistas) que mantêm contato com os alunos de forma passageira. A relação, outrora permanente e baseada na troca de conhecimento mútuo, se transformou em cliente x produto.
Nos novos ambientes “acadêmicos” as paredes são “limpas” e os quadros de aviso só podem ser ocupados com autorização prévia. Os diretórios são criados e “estimulados” com o propósito de vender pacotes promocionais de blocos carnavalescos e excursões e os integrantes desses “novos” centros não passam de corretores desses produtos. Entra-se na faculdade para adquirir um diploma à prestação e, por vezes, o incômodo dessa operação comercial é um professor mais exigente que “teima” em reprovar o aluno, afinal de contas ele está pagando seu “produto”, como paga também seu abadá e sua excursão.
Mas, como dizia a banda Barão Vermelho, na voz de Frejat, “Saudações a quem tem coragem”. Talvez chegue o dia em que os braços espreguiçarão e uma nova geração de lutadores venha a emergir em solo brasileiro. Enquanto isso, beija-se a opressão mental com o retribuo do sorriso incauto. Como ficaram ingênuos e alienados.