Textos ao vento

Um pouco de tudo. Um bate papo sobre política e sociedade contemporâneas sustentado na cultura noticiosa. Jornalismo em diálogo constante com a história. Editor responsável - José Carlos Peixoto Júnior DRT-BA/1884

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Um pouco de tudo. Um bate papo sobre política e sociedade contemporâneas sustentado na cultura noticiosa. Jornalismo em diálogo constante com a história. Editor responsável - José Carlos Peixoto Júnior DRT-BA/1884
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Arquivo de: Setembro 2006

27.09.06

A imprensa fala pra quem?

Efeito mínimo diante de toda pancadaria. Das duas uma: ou o povão em nada escuta a imprensa ou esta está publicando em grego. Resultado da última pesquisa:

Ibope -

Lula - 48%

Alckmin - 32%

Heloisa Helena - 8% 

Datafolha -

Lula - 49%

Alckmin - 33%

Heloisa Helena - 8%

 

  • criado por  Zeca criado por Zeca
  • Postado em 22:56:19

24.09.06

Cobertura incompleta

A pesquisadora alemã Noelle-Neumann, que trabalha com mídia e opinião pública, mediante seu estudo denominado Espiral do silêncio, indica que as pessoas são influenciadas não apenas pelo que as outras dizem, mas pelo que pensam que os outros poderiam dizer. Neumann afirma que se um indivíduo imagina que sua opinião poderia estar em minoria, ou poderia ser recebida com desdém, essa pessoa estaria menos propensa a expressá-la. Concebe-se que no indivíduo o não-isolamento em si mesmo é mais importante que seu não-julgamento. Então a dúvida sobre a capacidade de julgamento que os indivíduos têm sobre eles mesmos funciona como componente ao qual se agrega o medo que torna as pessoas vulneráveis à opinião das demais. E isso é determinante no caso de pertencimento a grupos sociais que podem punir aquele que discorda por ele ir além da linha autorizada.
A tese da pesquisadora pode auxiliar na explicação do frisson causado nos últimos dias pela imprensa em relação ao escândalo do caso Vedoin, quando pessoas ligadas à campanha do candidato a governador de São Paulo pelo PT, Aloísio Mercadante, foram flagradas tentando comprar um dossiê que ligaria os candidatos do PSDB José Serra (a governador de São Paulo) e Geraldo Alckmin (presidente) à máfia dos sanguessugas, responsável por operações de compras superfaturadas de ambulâncias. Os documentos, negociados pelo empresário Luiz Antônio Vedoin e seu pai Darci Vedoin, foram adquiridos pelo valor de R$ 1,7 milhão, e segundo informado pela revista Carta Capital (edição 412), reuniam cópias de cheques, recibos e um vídeo de 24 minutos onde José Serra aparece num evento ao lado de sanguessugas como Pedro Henry, Lino Rossi e Ricardo Freitas, à época filiados ao PSDB.
O enquadramento dado pela esmagadora maioria da imprensa brasileira tem se limitado, até então, a uma parte do fato: o ato abominável dos integrantes da campanha de Mercadante que agiram de forma escusa. Do ponto de vista jornalístico, não se pode prevaricar ante essa situação, afinal de contas é fato concreto que um grupo de militantes queria se utilizar de um esquema criminoso para atacar adversários políticos. Isso é repugnante sob todos os aspectos e um ultraje moral. Mas daí a transformar o fato numa peça de artilharia eleitoral são outros quinhentos. É menos repugnante o envolvimento de caciques do PSDB com a máfia das ambulâncias? Onde está a ampla cobertura jornalística?
Tais indagações podem ser respondidas quando se entende que as vozes isoladas da imprensa que buscam a mais ampla cobertura desses fatos ficam sepultas diante do paredão montado pelos “santos” da mídia. E não estamos aqui falando de militância e sim de jornalismo. Tomemos o exemplo da revista Carta Capital, assumidamente pró-Lula. A edição que passou a circular na última sexta-feira à tarde não recuou um milímetro no sentido de entender os pormenores do fato, inclusive contando com ácido editorial do editor-chefe, Mino Carta. Mas na mesma cobertura a revista radiografa a situação interna do PT, apontando inclusive as tensões do partido e as críticas de vários de seus integrantes, inclusive o presidente da República, que classificou o episódio como abominável.
Mas não é o que se constata no restante da grande mídia. O que se observa é a defenestração do presidente e a construção de um clima político com nuances de um golpe de Estado. A não aceitação das tendências de voto da população brasileira, as quais apontam o apoio da maioria do povo ao governo Lula, corrobora com um processo de cobertura que se caracteriza pelo unilateralismo escancarado. Num site público, por exemplo, aparece a “notícia”: “Vedoin temia levar calote de petistas”. Quem é a fonte? Um líder de quadrilha. E do que trata a notícia? De detalhes insignificantes das negociações.
A vontade explícita da derrota da candidatura do presidente atua como um manto que visa calar e condenar aqueles que se atrevam a ver os fatos de forma clara. No mais, juntam-se todos os grandes colunistas e jornalistas desse país para “explicar” o ocorrido pela ótica da militância pró-Alckmin. É como se o esquema dos sanguessugas tivesse desaparecido da agenda da mídia para se transformar num álibi contra Lula. O pecado dos assessores de campanha do PT custa infinitamente mais do que as supostas relações entre José Serra e a família Vedoin. Ou o lado obscuro do PT é mais dark do que o do PSDB ou PFL? A cobertura jornalística em curso é uma ferramenta para a campanha de Geraldo Alckmin.
Por outro lado, a despeito do bombardeio, os índices das pesquisas, até o momento, pouco têm respondido ao caso Vedoin. Na pesquisa divulgada neste sábado (23/09) pelo Instituto Datafolha, Lula oscilou um ponto para baixo e Alckmin subiu um ponto. O presidente está com 49% dos votos e seu principal adversário com 31%. Mesmo assim os dados não foram devidamente tratados pelo jornal Folha de São Paulo, a qual pertence o instituto responsável pelo levantamento.
Teríamos então duas espirais do silêncio: Uma que o povão constrói edificando uma sólida parede que blinda a candidatura do presidente; E outra trabalhada pelos donos dos meios de comunicação com a colaboração de muitos jornalistas que asseguram a simpatia da mídia por Geraldo Alckmin. Na primeira não há espaço para se opor a Lula nas favelas, periferias e demais rincões de pobreza desse país. Na segunda, no ar refrigerado das redações, não há espaço para opiniões que contrariem a vontade dos donos dos meios de comunicação.

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  • Postado em 21:32:10

13.09.06

Costa Gavras questiona novamente

 O ator José Garcia (foto) interpreta o executivo desempregado Bruno Davert que é tomado por um surto psicótico de institinto assassino. O diretor Costa Gavras novamente discute as contradições da sociedade capitalista no genial filme O Corte  

Suas obras demoram a aparecer nas telas, mas quando isso ocorre é certeza de bom filme. Não foi diferente com O Corte, último trabalho do genial cineasta grego Costa Gavras. Com roteiro dele e do francês Jean-Claude Grumberg, a película retrata o desespero do executivo desempregado Bruno Davert, interpretado pelo ator José Garcia. Depois de 15 anos trabalhando numa grande empresa do ramo de papel, Davert é demitido num processo de corte coletivo de funcionários. Após dois anos e inconformado com a situação, ele põe em prática um plano que culmina no assassinato dos seus potenciais concorrentes a uma nova oportunidade de trabalho na empresa.
O tragicômico serve para o diretor como pano de fundo que leva à discussão do desemprego e outras mazelas do neoliberalismo. Desempregado, o personagem principal se vê humilhado numa sociedade onde o filho rouba programas de computadores e vai preso e a mulher lhe confessa um caso extraconjugal que coloca seu casamento em crise.
A competição pela sobrevivência se dá paralela à manutenção do status quo ameaçado num ambiente onde, literalmente, um quer solapar o outro e os laços de amizade e família ficam vulneráveis.
Ainda que de forma diferente de Z, Estado de Sítio e Quarto Poder, este último filme de Costa Gavras mantém o mesmo diapasão dos demais quando o assunto é questionar a opressão, dessa vez econômica.
Ter seu emprego cortado significa a subtração da dignidade, não importando que essa dignidade seja descartável para o consumo de um sistema que se mostra indigno quando tem que mexer com vidas como se mexe com peças de reposição de uma engrenagem. Vale à pena conferir.

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  • Postado em 16:17:56

11.09.06

E o 11 de setembro do qual não se fala?

Enquanto os norte-americanos e o mundo se lembram consternados dos episódios do dia 11 de setembro de 2001, outro fato ocorrido na mesma data, e que teve um número superior de mortes, passa despercebido do debate travado pela grande mídia. Há cinco anos as torres gêmeas do Word Trade Center, em Nova York, eram alvejadas por dois jatos que as transformaram em pó, matando 2,9 mil pessoas. O ataque foi reivindicado pela organização terrorista Al Qaeda. Na mesma data, há 33 anos, um governo legítimo, eleito pelo povo do Chile, era destituído em meio a um banho de sangue patrocinado pela CIA sob as ordens do presidente norte-americano Richard Nixon. Segundo relatos da Anistia internacional, cerca de 30 mil pessoas morreram e mil se encontram até hoje desaparecidas em decorrência da quartelada que conduziu o general Augusto Pinochet ao poder por 17 anos. O Chile foi transformado num campo de concentração onde imperou a tortura e o desrespeito aos direitos humanos. Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile constituíram naquele período o que ficou conhecido como cone sul da repressão.
Salvador Allende fora eleito presidente dos chilenos pela coligação de esquerda denominada Unidade Popular, uma aliança dos partidos Socialista e Comunista. Allende era filiado ao primeiro. Na sua plataforma de governo constavam a nacionalização das minas de cobre, reforma agrária, estatização dos bancos e políticas sociais voltadas à população mais pobre. Os Estados Unidos temiam que o Chile se transformasse numa nova Cuba, que vivenciara um processo revolucionário em 1959. Henry Kissinger, o poderoso sercretário de Estado norte-americano, alegava que Cuba e Chile perfazeriam nas Américas “uma parede vermelha”, numa alusão à influência da União Soviética.
O governo de Allende começou a ser sabotado no dia que tomou posse. Atendendo à solicitação do Congresso, o então presidente Bill Clinton autorizou, em 2000, a abertura dos arquivos da CIA, Pentágono, Departamento de Estado e do FBI. Os documentos atestam que o ex-presidente Richard Nixon autorizou o então diretor da CIA, Richard Helms, a minar o governo chileno. Milhares de dólares foram injetados para mobilizar diversos setores da sociedade no sentido de desestabilizar o Chile. Ainda assim, a população resistia e continuava a apoiar o governo socialista da Unidade Popular.
Enquanto o golpe se punha em marcha, o povo se mobilizava e exigia o comprimento do programa de governo de Allende. Ao mesmo tempo, banqueiros, industriais, latifundiários, donos de meios de comunicação, milícias armadas de direita e agentes da CIA tramavam o golpe. O relato mais impresionante desse momento foi feito pelo cineasta e documentarista Patrício Guzman na trilogia A Batalha do Chile (dividido em três partes: A insurreição da burguesia; O golpe militar; e O poder popular).
O horror começa no dia 11 de setembro de 1973. Militares rebeldes iniciam a “operação silêncio” isolando as praias de Val Paraíso e Viña Del Mar,  tomando o controle de setores estratégicos. Às 7h da manhã Allende deixa sua residência e se dirige para o Palácio de La Moneda, sede do Governo. Um pouco antes do meio dia aviões caças Hawker Hunter iniciam o ataque ao palácio. Por 17 vezes o La Moneda é alvejado. Às 14h Allende se suicida deixando uma mensagem ao povo do Chile.
Acabara o sonho de transformação democrática para o socialismo. Interrompia-se uma tradição centenária de democracia naquele país. Políticos, artistas, jornalistas, intelectuais e opositores em geral foram presos, torturados e assassinados por um dos regimes mais sangrentos da história da humanidade.
Entre o 11 de setembro de Nova York e o de Santiago, um elo: ambos decorreram da ganância colonial de uma elite que ontem não aceitava e ainda não aceita perder influência política e econômica. Os dois episódios são faces de uma mesma moeda. Resta à consciência internacional estabelecer a ligação histórica entre ambos para entender que o primeiro foi responsável direto pelo segundo.

  • criado por  Zeca criado por Zeca
  • Postado em 17:24:57

10.09.06

A difícil tarefa de dar sabor ao chuchu

É incrível como boa parte dos “intelectuais”, “pensadores” e “jornalistas” desse país se bata para entender o avanço avassalador do presidente Lula nas pesquisas de intenção de voto à Presidência da República. Com alguns institutos apontando o presidente com 51% das intenções, dando como certa a reeleição, as dúvidas que se apresentam refletem dois aspectos: A má vontade de entender a realidade e portanto a leitura correta dos números; E o preconceito de classe que permeia boa parte desses grupos ditos “formadores de opinião”.
Basta analisar as pesquisas recentes do Instituto Datafolha. Na faixa de renda familiar inferior a R$350, Lula bate Geraldo Alckmin por 51% a 21%. É o grupo que tem se beneficiado com os programas de assistência social tipo bolsa-família, certo? Certo, mas não apenas. A verdade é que programas sociais governamentais nunca tiveram impacto determinante nas opções de escolha do eleitorado brasileiro, particularmente o do nordeste. Simplesmente porque quase não existiam.
O que prevalecia era a política do assistencialismo momentâneo, pontual e sazonal, política levada a cabo durante décadas pelas classes dominantes. O que ocorre agora é a construção de uma expectativa de ampliação desses programas, o que já se processa em setores como educação, saúde, segurança alimentar etc. Pelo mínimo que se tenha feito, o povo constata que há muitos anos essa atenção não lhe era dispensada. E o fato é irradiador. A própria classe média já começa a reconhecer os avanços e migra para a candidatura de Lula.
Em entrevista concedia à revista Caros Amigos, o jornalista Franklin Martins, uma voz lúcida em meio a um mar de verborréia barata, comenta que seis milhões de pessoas foram incorporadas à classe C, ampliando o mercado de consumo. É simples: o sujeito que não tinha absolutamente nada há quatro anos passou a consumir um fogão, uma tv ou um computador à prestação, além disso está comendo mais. Martins entende essa situação como um elemento novo na política brasileira.
Por outro lado, o povo beneficiado com essa política avalia Alckmin como representante dos interesses dos ricos. O fato também é confirmado pelos dados da última pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira, 08/09.
A despeito do quadro apresentado, a grande mídia teima em buscar explicações no fenômeno do populismo, como ocorreu neste domingo (10/09) no jornal Folha de São Paulo. O sociólogo Francisco Weffort, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, explica a tendência da maioria do eleitorado à política do “rouba mas faz”. Ele compara Lula a Adhemar de Barros, governador paulista dos anos 50 que se notabilizou com essa assertiva.
E Lula roubou? E como se deu o esquema nas entranhas do famoso “mensalão”? Os fatos que a grande mídia utilizou contra o presidente foram, de certo modo, tão evasivos que a nada chegaram. Ainda hoje Ministério Público e demais investigantes se batem para desvendar o novelo do chamado ”Valerioduto”. Quanto à imprensa, esta cansou.
Mais lúcido do que Weffort, o cientista político Fabiano Santos, na mesma entrevista, afirma que o que está ocorrendo é uma espécie de “revanche por parte dos eleitores do PT”. É razoável a afirmação de Fabiano. Para ele, o eleitorado está dando uma resposta ao que o pesquisador entende como uma ação além das medidas por parte da imprensa ao “cobrir” os fatos nos últimos dois anos.
Jogando fora toneladas de teorias que abarcam os fenômenos da mídia, compreende-se que a imprensa é muito mais pautada do que pautadora. E nesse caso, pautada pelas classes que a sustenta. Em contraposição, não está sendo assimilada pelas classes às quais vira as costas. Franklin Martins tem razão: existe uma nova tomada de atitude do povo que ainda não foi avaliada pelos “intelectuais” da imprensa.

  • criado por  Zeca criado por Zeca
  • Postado em 21:01:36