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O olhar da fotojornalista Iracema Chéquer sobre uma Salvador esquecida nas suas encostas. Apenas um varal estendido fazendo silhueta ante um sol despedindo-se de mais um dia na labuta do sofrido soteropolitano. Na sua corda, nada, apenas nada...
Stuart Angel e sua mãe, Zuzu Angel, vivem um drama que transcende o plano político-ideológico num momento crítico da vida nacional
A luta da estilista carioca Zuzu Angel para encontrar o corpo do filho Stuart Angel, assassinado no início da década de 70 pelo Regime Militar, ficou marcada no país. Pelas mãos do diretor Sérgio Machado, o drama de Zuzu chega aos cinemas com a brilhante participação da atriz Patrícia Pilar, que interpreta a personagem principal, e do ator Daniel Oliveira, na pessoa do jovem militante esquerdista Stuart Angel, o Paulo, seu nome na clandestinidade.
A película conta ainda com excelente elenco, a exemplo dos atores: Ângela Vieira, Ângela Leal, Paulo Betti, Antônio Pitanga, Leandra Leal, Luana Piovani, Regiane Alves, Othon Bastos, entre outros.
Não sei se foi a intenção dos roteiristas Marcos Bernstein e Sérgio Rezende, mas o que dá entender é que o filme debate questões do período que buscam resgatar situações de ordem existencial ainda não totalmente resolvidas. Torturas, violência, desaparecimento de corpos de prisioneiros políticos são fatos já amplamente relatados por dezenas de filmes e documentários e centenas de publicações no Brasil. No entanto, poucos se aventuram a lançar um olhar mais crivo sobre o comportamento de parte da juventude naquele período, na sua maioria oriunda da classe média.
É fácil afirmar que se tratava de jovens utópicos e inconseqüentes que queriam combater um regime feroz e implantar o socialismo no Brasil. A utopia move o mundo, há quem diga. E é inconteste que a o país deve muito à ação daqueles jovens de classe média que entenderam a política como uma seita religiosa. Vive-se uma democracia no Brasil e debite-se à mesma àqueles garotos e garotas aguerridos e utópicos.
Machado e Bernstein procuram entender as entranhas de um considerável segmento da população que passava à margem de tudo que estava acontecendo, a não ser quando alguma coisa ocorria com alguém próximo.
Zuzu Angel, estilista e empresária, vivendo em meio a banqueiros e socialites, portava-se como milhares de mães e pais que buscavam orientar seus filhos a manter distância de “atitudes subversivas”, afinal de contas mudar o mundo era tarefa para outros e não para os seus rebentos. Na verdade, Zuzu transitava entre aqueles que financiavam os órgãos de repressão no Brasil, já que eram os grandes empresários que canalizavam recursos para pagar o combate aos movimentos de esquerda.
Stuart Angel militava junto ao capitão Lamarca, um dos principais líderes da guerrilha urbana no período. Num diálogo interessante entre o jovem militante e sua mãe, o rapaz alfineta: “Mãe, você fica costurando para mulher de general?”. Rapidamente, Zuzu responde: “É o que faço agora. Faça sua revolução que eu passo a costurar para as mulheres dos integrantes do comitê central”. O que parece uma provocação mútua termina por explicitar visões de mundo que indicam a polarização ideológica num momento crítico da nossa história.
Era ser de esquerda ou de direita e não existia meio termo. Mas não para Zuzu Angel, que em determinado momento transformou o alienado ambiente dos desfiles de moda em palco de contestação política lançando uma coleção com motivos “engajados”, ocasião em que fecha o desfile exibindo a foto do filho assassinado.
Em outro momento do filme, a mesma Zuzu cobra de um humilde sapateiro, apresentado na película como o pai de algum companheiro que Stuart não entregou sob tortura, a ausência do filho. “Meu filho morreu para salvar a vida do seu”, provoca Zuzu Angel ante o operário que trabalha e apenas a fita com um olhar intrépido, apertando um prego entre os lábios que sangram. Zuzu retoma então seu papel de classe média. Por que seu filho morrera para salvar a vida do filho de um sapateiro? A causa de Stuart, ao que parece, representava para sua mãe um gesto assistencialista de alto risco. Zuzu não via razões ideológicas na “aventura” do filho. Até então.
Todavia, a postura dessa personagem muda à medida que ela entende o papel do filho naquele momento da vida nacional. Numa tirada individual, chega a jogar de cima de sua loja cartas à população na vã atitude de informar aos transeuntes as barbaridades do regime. Transeuntes, registre-se, indiferentes à tortura e à violência de um regime fascista. A atitude da estilista pode ser entendida como um ato de desespero. Mas é também uma mulher de coragem quando berra dentro do tribunal militar que seu filho foi assassinado pelos torturadores da Operação Bandeirantes. De resto, fica a lição: a ditadura militar no Brasil foi um câncer que deixou marcas irreparáveis
Fidel, à direita, ao lado de Che Guevara, em 1960, logo após a Revolução. Eles acreditavam em algo mais
O estado de saúde de Fidel Castro, 80 anos, que há 47 comanda a República Socialista de Cuba, ainda não foi devidamente esclarecido. O jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, o Granma, até o momento, não divulgou detalhes da cirurgia sofrida por Castro, nem ao menos se sabe em que local do país o líder cubano se recupera. Segundo o vice-presidente Carlos Lage, “Fidel teve que enfrentar uma operação e se recupera favoravelmente. Ele não tem câncer e a operação foi um sucesso”. O jornal também divulgou comunicado enviado pelo comandante buscando tranqüilizar a população.
O texto afirma que o processo político cubano se mantém estável e pede aos concidadãos que vigiem a Revolução. Enquanto isso, perto dali, nos Estados Unidos, o presidente Bush já “organiza” a transição anunciando “ajuda” econômica à ilha. Um documento de 450 páginas, preparado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, prevê a intervenção em Cuba e o desencadeamento de intensa repressão a qualquer tipo de resistência. O objetivo é colocar o país nos trilhos do mais ferrenho neoliberalismo.
O documento garante a devolução de todas as propriedades a seus antigos donos, incluindo as residências. Todos os setores da economia seriam privatizados, inclusive educação e serviços de saúde. Prevê-se também a dissolução das cooperativas, restaurando os antigos latifúndios. A previdência e a assistência social, com todos os tipos de pensões, seriam eliminados e se criaria um plano especial de obras públicas para os idosos. Eles se empregariam enquanto o estado de saúde permitisse. O trabalho, segundo o documento, seria levado a cabo pelo Comitê Permanente do governo dos Estados Unidos para a Reestruturação econômica.
Mas o plano norte-americano reconhece também as dificuldades que seriam enfrentadas. Bush entende que a resistência seria tenaz. "Não será fácil", afirma o presidente norte-americano no documento que contempla, nesse caso, a repressão em massa contra todos os militantes do Partido Comunista, membros de organizações sociais e simpatizantes do governo. O responsável pelo programa seria um burocrata nomeado por Bush, o "coordenador para a transição e reconstrução de Cuba". Uma espécie de governador-geral, como foi, há mais de um século, o general Leonard Wood. Na verdade, a Casa Branca já tem esse nome: o diplomata Caleb McCarry, que recentemente visitou alguns países europeus com o objetivo de conseguir apoio ao plano yanke. Bush Junior chama esse plano de “retorno à democracia genuína”.
Não se atendo ao conceito de “democracia” de Bush, é certo afirmar que a permanência de Castro no poder por mais de quatro décadas pode ter fragilizado as instituições cubanas. A suposta incompatibilidade da liberdade com o socialismo é um paradigma das esquerdas. Não existe receita de bolo para se fazer revoluções. Desde o início do século XX, quando os supostos regimes socialistas passaram a ganhar terreno, que as esquerdas se debatem quanto à manutenção das conquistas sociais. Os embates envolvendo Leon Trotsky, Vladimir Lênin e Stalin, e seus respectivos seguidores, no início da formação da República Soviética, já indicavam esse paradigma. Todos divergiam quanto ao método, mas era consenso entre eles a supressão das liberdades públicas, o partido único e a construção de uma blindagem política para o grupo dominante. O tal do centralismo democrático como instrumento para barrar a contra-revolução.
Buscar uma verdadeira democracia plena como projeto de poder era o desafio para as esquerdas. Democracia essa que deveria ancorar-se na mais ampla participação popular no sentido de radicalizar conquistas sociais, avançar no desenvolvimento e, gradativamente, construir uma sociedade que se distanciasse da tutela do Estado. O ideal era a autogestão, ou seja, o comunismo no sentido exato da palavra. Nem de longe isso ocorreu nos antigos regimes socialistas, ditaduras forjadas com o nome de democracias populares. Até a Coréia do Norte, um regime anacrônico, tem esse nome.
Todavia, não se pode comparar Cuba com a terra de Kim Jong Il, um louco que preside a Coréia do Norte. O regime comandado por Fidel, ainda que tenha sua faceta autoritária, com inadmissíveis atentados às liberdades individuais (prisões de escritores, jornalistas, intelectuais, execuções etc), conseguiu também realizar obras grandiosas na ilha e exportar serviços sociais para o terceiro mundo.
Vinte e cinco mil médicos atuam em 68 países do mundo. Cuba se coloca entre as nações que erradicaram completamente o analfabetismo e desenvolveu pesquisas nas áreas de saúde que colocam o país em condição invejável em termos de assistência à sua população. Tudo isso construído sob o bloqueio econômico de mais de duas décadas.
Com o fim da era Fidel, a sociedade cubana enfrentará o mais decisivo embate da revolução. Ou esta triunfará de uma vez, transformando-se e buscando novos rumos para enfrentar os seus algozes, o que passa pelo fortalecimento das instituições e organizações populares, ou sucumbirá frente o poderio militar e econômico dos Estados Unidos. A sensação é de que a revolução começara efetivamente agora. O teste é decisivo.
Fazendo o gosto dos patrões da mídia em ano eleitoral, o presidente Lula vetou o projeto que ampliava as funções da profissão de jornalista. Será que ele quer se candidatar também a "apresentador" de TV?
E o presidente Lula vetou, na íntegra, o Projeto de Lei 079/2004, aprovado no Congresso Nacional, que atualizava as funções de jornalista. Perdeu não só a categoria, que há anos luta pela regulamentação plena da profissão, mas, sobretudo, a sociedade que fica mais uma vez refém do jogo encetado pelo patronato da mídia.
O argumento utilizado pelos donos dos meios de comunicação é que o PL prejudicaria a liberdade de imprensa, quando, na verdade, quem prejudica a liberdade de imprensa é a estúpida concentração de concessões de rádio e TV nas mãos de meia dúzia de famílias. O governo capitulou aos patrões, assim como ocorreu com o PL que criava o Conselho Federal de Jornalismo e a adoção do padrão japonês para a TV digital.
O projeto que fora enviado ao Congresso Nacional, de autoria da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), ampliava de 11 para 23 o número de funções da profissão, entre elas, as de repórter-cinematográfico. Seu pecado original, no entanto, foi entender que chargistas e diagramadores também necessitariam do diploma, o que obviamente é dispensável. Todavia, é notório que áreas como assessoria de imprensa, por exemplo, têm que ser restritas a jornalistas. Com o veto, qualquer um poderá ocupar a função.
O mais interessante foram os argumentos utilizados pelos donos da mídia, e seus penas vendidas, contra a regulamentação. A maior parte deles partiu daqueles que nunca se quer pisaram numa redação de jornal. O diplomata e cientista político Celso Lafer, por exemplo, argüiu que o PL ia de encontro à liberdade de expressão, sustentando-se no fato de que o Brasil fora signatário da Declaração de Chapultepec, encontro ocorrido no México, em 1994, e que reuniu centenas de empresários do setor de diversas partes do mundo. Na verdade, um clube do bolinha de donos de empresas de mídia.
Outros protestos advieram de jornalistas éticos e responsáveis, mas que equivocadamente ainda entendem a práxis jornalística pelo viés do “talento” e da “arte boêmia” de fazer jornais. Dois deles, Alberto Dines e Mino Carta, inimigos históricos da regulamentação, lamentavelmente ainda se atêm ao velho clichê nariz de cera o qual pressupõe que um texto bonitinho, poeticamente cantado, bem rimado e escrito é o suficiente para informar. A quem? Boa pergunta.
Os que se postam contra a regulamentação ainda vivem um momento já superado do jornalismo-indústria em plena idade mídia. A informação é um dos produtos mais caros e o principal operador social do século XXI. Fazer comunicação de massa não se limita ao deleite poético-estético-artístico dos que pensam que apenas um suposto talento é o suficiente. Comunicação hoje é ciência e requer compromisso de profissionais academicamente preparados para esta missão.
Não estamos falando aqui que colaboradores de diversas matizes não possam atuar em espaços delimitados no jornalismo. Podem e devem. Mas quando se trata de emitir informação para a formação de opinião aí se adentra numa seara que não deve ser ocupada por leigos, calças-curtas e afins. Não!
O professor Eduardo Meditsch, que leciona no curso de Jornalismo da UFSC, informa que “estudo recém realizado pela revista The Economist, com mais de mil executivos de empresas de todo o mundo, aponta a Gestão do Conhecimento como a questão mais importante para a sociedade, a economia e as organizações nos próximos 15 anos (The Economist, 2006)”. Nesse sentido, esclarece o professor, “o diferencial competitivo apontado por eles está no conhecimento e nas redes de relacionamento: buscar, recolher, selecionar, processar, conhecer e compartilhar informação se tornou o essencial”.
O que pode ser notícia para a sociedade e o que pode ser notícia para os barões da mídia? Afinal de contas, Hebe Camargo, um dos cérebros mais desprovidos de raciocínio do país, não entrevista? Ana Maria Braga e Luciana Gimenez também não o fazem? Luciano Hulk do mesmo modo? Aqui em Salvador, seminário ocorrido no semestre passado arrolou um cidadão denominado de Eduardo Bocão, um resenhista esportivo debochado e por vezes cretino, que talvez nem mesmo tenha o segundo grau, como um dos “jornalistas” presentes. Todos podem ser jornalistas, basta que tenha “talento”.
Enquanto isso, na Universidade de Kent, nos Estados Unidos, pesquisadores de jornalismo estão trabalhando em parceria com colegas da informática e das ciências da informação no desenvolvimento de uma ergonomia informativa – informative ergonomics –, técnica desenvolvida para fornecer ao usuário a informação certa, na hora certa, no local certo, na forma e na profundidade adequadas à sua necessidade. Essa pesquisa, assim como outras, entende que a informação de massa, instrumento necessário à manutenção e desenvolvimento da democracia, é algo que deve ser produzido sob rígidos padrões metodológicos com o objetivo de proporcionar o esclarecimento e conhecimento público.
Todavia, tais objetivos nem de longe contemplam a agenda dos patrões e barões da mídia, posto que informar, no sentido exato da palavra, é o que eles menos almejam. Um outro fato também deve vir à baila: o sucateamento profissional equivale ao achatamento salarial. Podendo qualquer um “talentoso” escrever em jornal, rádio e televisão, se paga a esse “talentoso” o que se quer. Por fim, também não interessa aos patrões da mídia uma classe organizada e consciente do seu trabalho. Fica mais fácil para eles atuar num ambiente totalmente desregulamentado no qual seja possível a utilização dos meios de comunicação para a construção de projetos políticos nocivos à maior parte da sociedade.